Ficha de leitura do Livro “A LÓGICA DO CAPITAL INFORMAÇÃO: A fragmentação dos monopólios e a monopolização dos fragmentos num mundo de comunicações globais”de Marcos Dantas.
- 1. Uma utopia democrática.
Independente do modelo político-econômico adotado pelas diferentes sociedades industriais ao longo do século XX, os meios sociotécnicos de comunicação tornaram-se instrumentos de poder e de conformação ideológica dos povos. A ideia do rádio como canal de interação dialógica entre sujeitos autônomos e dotados das próprias razões desapareceu diante de outra que fez do rádio e demais meios tornaram-se instrumentos básicos de hegemonia: aparelhos ideológicos de estado.
- 2. Um serviço exclusivo do capital.
No século XIX o capital passaria a dar um grande impulso às comunicações, entendidas por Marx, como um conjunto que englobava tanto o transporte de mercadorias e pessoas como o transporte de informações (Marx, 1984, II: 42); O mesmo teceu algumas considerações sobre o transporte de mercadorias, mas ignorou – talvez por lhe parecer de rala importância – o transporte de informações. Este último, até então, sendo sempre utilizado em maior escala pelas bolsas.
Na Europa inúmeros movimentos conservadores e liberais conquistaram a estatização dos telégrafos, denunciando prática de preços abusivos, prestação de serviços ruins dos antigos proprietários e também por necessitar manter o controle da informação, considerando-o essencial à consolidação dos regimes políticos pós conturbações revolucionárias da primeira metade do século XIX.
No momento que se tornava aberto ao público, o telégrafo, por isso mesmo, passava a ser censurado. O governo temia que a abertuda do telégrafo à população facilitasse seu uso para realização de complôs. Suas redes acabavam incorporadas a algum monopólio, estatal ou privado, por sua natureza técnica, assim como certas atividades econômicas, tende naturalmente a constituir monopólios (assim como é inviável, num mesmo prédio, a presença de dois fornecedores de água potável).
A falta de comentários sobre esse tema, por parte de Marx, refletiu na sua herança teórica e política e na atuação dos seus seguidores da época.
- 3. A Segunda revolução da informação.
A patente, primordialmente, consistia em um prêmio atribuido pela sociedade ao inventor, ao mesmo tempo que obrigava-o a tornar pública as características do seu invento. A mesma dava ao inventor o direito de auferir renda monopolista temporária pela exploração comercial exclusiva do invento. Em fins do século XIX, esse significado foi desvirtuado e os inventores de sucesso se tornaram “patenteadores profissionais”. Foram criados laboratórios de pesquisa, onde cientistas e técnicos são assalariados para produzir patentes. A AT&T (a partir das patentes de Grahan Bell), a General Eletric (de Edison), a Westinghouse, a Ericson, a IBM, etc.
Nesse cenário – até mesmo na imagem-simbolo do capitalismo da época: uma fábrica enfumaçada, cheia de funcionários chaplinianos vestidos com macacão azul – a fonte de valor deslocava-se da produção imediata e rumava para uma esfera que poderíamos denominar produção social geral (Dantas, 1994). Desde então, o que a maioria das pessoas vem produzindo é informação social. O que varia é a quantidade maior ou menor, ou a redundância maior ou menor da informação processada em cada instância do precesso produtivo.
Para articular essa produção social geral, o capital investe cada vez mais na industria de informação. Como produção é imediatamente consumo e vice-versa (Marx, 1974:115), trata-se de organizar a sociedade para consumir (produzir) bens cada vez mais distanciados das suas necessidades humanas básicas (comer, dormir, vestir) e cada vez mais carregados de valores simbólicos, transformados em necessidades para a vida social dita moderna.
- 4. Socialização da Telefonia.
O autor não busca discutir, neste ensaio, a industria da informação em seu conjunto. A partir daqui, centrando-se nas comunicações (rádiodifusão e telecomunicações).
A industria de material de escritório dará um salto revolucionário. Ao contrário da telegrafia, a telefonia e a radiofonia viriam a escapar da restrita esfera das empresas e penetrar no espaço da família e dos usos não comerciais, exatamente porque serviam à articulação ampla da produção social geral. Nesses novos usos a AT&T descobrirá uma nova frente de acumulação e seu primeiro presidente, Theodore Vail, implementa uma agressiva estratégia visando levar uma linha telefônica a cada lar norte-americano. Transformando-se assim em teletransportadora universal de informação social e também fornecedora universal dos equipamentos e sistemas necessários a esse transporte.
Processado por Truste, Vail negociou o monopólio com o governo, reivindicando controle público sobre seus negócios, expecialmente na fixação de tarifas. Permitindo lucro na telefonia comercial, como meio de financiar a telefonia residencial. Em 1925, 40% das residências norte americanas estavam conectadas à rede telefônica. Em 1940, quase 100%.
- 5. A era do rádio.
Assim como a AT&T, a Westinghouse passou a se colocar como transportadora universal. Mas para tal, precisava monopolizar o meio. Em 1926, por intermédio da RCA (compania composta pela Westinghouse, AT&T e General Eletric, criada para explorar as ligações telegráficas transoceânicas, concorrendo com os cabos britânicos) constitui-se a NBC, para difundir nacionalmente programas de rádio, cabendo a AT&T viabilizar as transmissões, pelas linhas telefônicas, a todo país.
A característica anarquica do acesso às frequências foi “solucionada” em 1927, quando o Congresso Nacional Americano aprovou a Lei do Rádio, pela qual, sob o argumento de que “as ondas do ar pertencem ao público”, estabeleceu que elas só poderiam ser usadas com concessão governamental. Seis anos depois uma nova lei criou a FCC que passou a regular e fiscalizar, em todo EUA, os serviços de radiodifusão e telecomunicações.
Em 1928 foi criada a segunda rede nacional de rádio, a CBS. Em 1943, desmembrando-se da pioneira NBC, foi criada uma terceira. Como as três eram subordinadas à publicidade, dependentes da AT&T (transmissão) e dos fabricantes de equipamentos, seus conteúdos e qualidade de transmissão eram quase iguais. Essa articulação entre transportadores (de informação) e fabricantes de equipamentos cuidaria, inclusive, de desestimular métodos alternativos. Após a segunda guerra mundial a FCC foi chamada para regular a nascente televisão comercial e pessionada pelo oligopólio do rádio liberou, inicialmente, apenas a banda VHF. Quando, no início da década de 1950, a FCC decidiu liberar a banda UHF a indústria dos fornecedores recusou-se a fabricar televisores que capturassem ambos os tipos de sinais. Consolidando-se assim, na cultura norte-americana, o hábito de assistir programação de grandes redes de massa, não por imperativos técnicos, mas por decisões políticas e empresariais. A produção cultural era integrada a produção captalista geral.
A proposta de Brecht poderia estar a frente de seu tempo, mas a quase-ausência de lideranças democráticas e populares em debates na imprensa e parlamento contribuiu para o poder absoluto que os monopólios empresariais viriam a deter.
- 6. Enquanto isso no Brasil…
Aproveitando e fomentando a expansão mundial dessa infraestrutura, surgiram as agências de notícia. Elas produziam e vendiam noticiários jornalísticos, coletavam e forneciam informações para banqueiros e comerciantes e, sobretudo, eram instrumentos de propaganda das grandes potências.
A chegada dessas agências no Brasil fez com que seus telegramas determinassem quais acontecimentos eram importantes no dia-a-dia e como deveriam ser noticiados. Essas agências forneciam, e seguem fornecendo, uma única imagem do mundo (com a qual todos devem se identificar, caso queiram parecer desenvolvidos). Sobre esse pano de fundo que se (sub)desenvolveram as comunicações brasileiras.
Em 1870 Charles Bright instalou um cabo submarino costeando o litoral brasileiro; em 1879 Paul Charles Burke montou uma rede telefônica no Rio de Janeiro, assim como outros anglo-saxões aventureiros que “traziam o progresso”. Em 1904 o inventor brasileiro, Roberto Landel de Moura, foi chamado de louco quando pediu apoio para avançar em pesquisas de radiotelegradia e radiotelefonia.
O telegrafo brasileiro foi introduzido por Guilherme de Capanema que , de 1852 a 1889, criou, dirigiu e expandiu um serviço telegráfico estatal. Em 1872 o Visconde de Mauá obteve licença para interligar, por cabos submarinos, o Brasil a Portugal e suas colônias. Após sua falência, repassou sua concessão (sem cobrar) para a Telegraph Construction and Maintenance Co., que logo incorporou a concessão dada a Charles Bright. Em 1872 um decreto imperial confirmou à empresa, por 60 anos, uma concessão exclusiva e , por mais 40 anos, uma sem exclusividade. Em 1874 ela transferiu seus direitos para a Western and Brazilian Telegraph Co. Que até 1973 controlou amplamente as telecomunicações no Brasil.
Em 1907 a Ligh & Power (grupo anglo-canadênce que explorava os serviços de eletricidade e bondes elétricos) fundou a Companhia Telefônica Brasileira (CTB) que dotou a capital federal e as principais cidades do sudeste com rede telefônica. Mesmo assim não investiu no segmento longa-distância, dominado pela Western, meio de comunicação mais confiável durante um século.
Em 1907 o congresso nacional decretou que os serviços de radiotelegrafia seriam explorados exclusivamente pela União, mas – entre 1921 e 1924 – por decisões legislativas, fêz-se um parêntese no monopólio, permitindo-se a entrada de grupos extrangeiros. Todos eles foram fechados após a revolução de 30, exceto a CTN (Companhia Telefônica Nacional, controlada pela americana ITT, que alegava transmitir “fonogramas” e não rádio).
Nesse processo a Western, que dominava os telégrafos, desincentivou o desenvolvimento de outras tecnologias que acabariam por gerar competição ( e desenvolvimento interno), tendo em vista o ocorrido nos países centrais.
- 7. Economia da Informação.
Na Europa e URSS a radiodifusão era financiada pelo tesouro governamental e cumpriria um papel mais político e ideológico, de construção de coesão social, do que de articulação da produção social geral, como aconteceu nos EUA (onde a radiodifusão era financiada pela publicidade).
Consolidam-se dois serviços distintos: telecomunicações e radiotelevisão. No primeiro o prestador do serviço apenas conecta os usuários (comunicação “ponto a ponto”). Na radiotelevisão o prestador se ocupa do conteúdo transmitido. O primeiro é controlado por normas predominantemente econômicas e industriais, enquanto o segundo é regulado por normas predominantemente políticas e culturais.
No interior desse modelo nasce a terceira revolução tecnológica nas comunicações. Computadores, satélites, microondas, fibras ópticas oferecem ao capital novos meios de processar e transmitir informação. Inovações financiadas por capital privado ou do estado, buscando tornar cada vez mais rápido, barato e eficiente o transporte da informação que interessa ao capital.
A partir de 1950, sobretudo nos EUA, o chamado “capital de risco” passa a desempenhar papel importante. Grandes investidores especializados em identificar inventos passíveis de serem comercializados, antecipando capital e viabilizando novas firmas industriais. Aple, Intel, Microsoft, HP, entre outras, devem suas origens ao “capital de risco” (ou venture capital).
Ao mesmo tempo o estado segue cumprindo papel estratégico de fomento. O transistor, financiado pelo estado e desenvolvido por empresas privadas, viabiliza a digitalização da informação, base técnica por excelência da produção social geral, cujo objetivo é a informação social.
Cada indivíduo, inserido na produção capitalista, não passa de um elo informacional que recebe, processa e transmite algum subconjunto de informações. O que distinguirá os indivíduos entre si serão suas competências para buscar e processar quantidades maiores ou menores de dados.
O valor da informação é poupar tempo de trabalho (para quem a acessa). Esse valor não se realiza por meio da troca na circulação (como na mercadoria), mas por meio da interação, da comunicação (Dantas, 1994a ; 1996). Disso decorre uma desigualdade entre o valor de quem consome e de quem a produz. Por isso, no modo de produção capitalista, as partes envolvidas precisam encontrar novas estratégias que possibilitem a apropriação e acumulação privadas da riqueza. O fornecedor terá que criar barreiras de acesso à informação, tentará evitar que o usuário tenha acesso quase simultâneo a fontes alternativas. Paralelamente, tentará ao máximo que o usuário tenha acesso a ele, enquanto fornecedor (ex: coppy- right).
- 8. A “desregulamentação” norte-americana.
Em 1982 a AT&T teve seu monopólio quebrado em sete monopólios regionais (RBOCs) pelo juiz federal Harold Green (que operariam apenas comunicações locais). As operações interurbanas e internacionais seriam feitas por transportadoras de informação (AT&T, MCI, GTE-Sprint). A quebra do monopólio abriu caminho para o desenvolvimento qualitativo e quantitativo das redes de TV a cabo e, em pouco tempo, as RBOCs deixaram de ser as principais transportadoras de informação dos EUA. Nas comunicações a longa distância a AT&T manteve seu domínio sobre as concorrentes (peso da marca, ampla cobertura nacional, desinteresse e confusão dos consumidores) que em troca de espaço para sobreviver, mantinham o governo afastado dos negócios nas comunicações a longa distância.
- 9. Consequências da “desregulamentação”
Na administração de Bill Clinton seu vice, Al Gore, propôs a construção de uma “auto-estrada da informação”. Aprovada em 1996, a Lei das Telecomunicações representou um difícil acordo entre companhias telefônicas (locais e de longa distância), provedores de serviços, fabricantes, emissoras, entre outros, precebendo-se a ausência do cidadão.
Isto representa uma mudança de ênfase: antes, justificava-se o atendimento ao interesse público como salvaguarda da cultura democrática básica; agora ele é salvaguarda da saúde econômica e da oportunidade. O papel da regulação é ajudar a indústria a se expandir e invovar, deixando para o processo político a tarefa de alocar diretamente qualquer subsídio. (Aufderheide, 1996: 16)
A tendência da “superestrutura jurídica” capitalista é não mais fazer distinção entre interesse público e privado.
Cada rede atende um conjunto selecionado de clientes. Fragmentação, e não competição, é o significante que melhor descreve os rumos das comunicações neste início de século.
- 10. “Paradigmas” não norte-americanos.
Do ponto de vista do usuário residencial, esses programas tem sido um sucesso. Do ponto de vista das corporações, submeteu-as a restrições ”competitivas” das quais haviam se “libertado” suas congêneres norte-americanas.
No momento em que as empresas (PPTs) não forem mais formalmente públicas ou estatais não haverá justificativas políticas ou legais para diferirem de coorporações capitalistas privadas. A evolução das redes e serviços prosseguirá determinada pelas exigências da acumulação de capital, apoiadas na apropriação da informação social e não no atendimento às carências ou direitos maiores do conjunto da sociedade.
- 11. Sociedades Subinformadas.
Empresas multinacionais atuam nos países periféricos mantendo suas bases de processamendo de dados nos países centrais (“roubando” mão de obra e investimento dos primeiros) para economizar recursos – e ter maior controle sobre as filiais
- 12. O caso brasileiro.
A comunidade que é levada a desejar o teatro, a música, o noticiário “enlatados” também vai preferir o doce “enlatado” e a blusa prêt-à-porter, desqualificando o trabalho e o produto da sua doceira e costureira.
O acelerado crescimento das comunicações brasileiras nos primeiros dez anos de governos militares realizou-se por meio de elevadas importações de bens e serviços. Entre o Estado comprador e as filiais fornecedoras articulou-se uma sólida aliança que se infiltrou e se espalhou pelos mais importantes gabinetes do Minicom (ministério das comunicações). O Centro de Pesquisas Padre Landell de Moura (CPqD), criado a partir de resoluções ministeriais de 1975 e 78, desenvolveu 76 produtos novos e gerou centenas de pedidos de patentes. Mas, em 1981 o Minicom reduziu para 50% das futuras compras da Telebrás a reserva de mercado para os produtos desenvolvidos pelo CQpD. Com a ascensão de Collor, toda essa política foi definitivamente desmontada e a CQpD – única instituição do gênero fora do eixo EUA – Europa – Japão – tornou-se um mero centro de estudos e análise.
- 13 A globalização.
A América Latina tornou-se o maior alvo dessas redes (com igual atuação internacional), por possuir alguma infraestrutura (desenvolvida por estatais) e ser “subinformada” (capítulo 11). Chile, Argentina, México, Venezuela, Porto Rico e Perú tiveram suas estatais privatizadas de 1991 a 94. A constituição de 1988 retardou o mesmo processo no Brasil.
Sarney, Collor e Itamar não souberam o que fazer com o monopólio depositado pelo povo em suas mãos. Teve início um processo de deterioração das telecomunicações. Dominadas politicamente, a direção e administração das subsidiárias estaduais passaram a atender interesses da clientela governista. Após fatiar e desvalorizar o sistema Telebrás (um dos 20 maiores transportadores de informação do mundo), o governo promoveria sua privatização. Fernando Henrique Cardoso reproduziria no Brasil o modelo adotado na Argentina e outros países latino-americanos (monopólio privado).
No Brasil, ao contrario da França, Alemanha e outros países europeus, o capital estatal não logrou reordenar-se para responder aos desafios dos novos tempos, até porque a força básica de sustentação do estado brasileiro é o capital multinacional estrangeiro.
- 14. Conclusões: Em busca de alternativas.
O estado não pode resumir-se a operar um mecanismo regulador que limite as suas funções à distribuição e fiscalização de concessões.
O eixo central de todo programa proposto é a (re)construção da esfera pública cidadã, com um caminho para a superação das limitações do capitalismo.
Agradeço a autorização do Prof. Marcos Dantas para disponibilizar este texto.
Ficha feita por: Matheus Gonçalves de Castro

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